
Tenho pensado muito sobre como, sem perceber, fomos eliminando pequenos rituais do nosso cotidiano.
Passar um café. Escolher um livro na estante. Caminhar sem fone. Cozinhar sem pressa. Escrever à mão. Colocar uma música e simplesmente escutar. Ou dançar <3.
A tecnologia facilitou muita coisa e não acho que o problema esteja nela. Sou fã em muitos momentos. Mas talvez valha pensar no que fizemos com todo o tempo que ela prometeu nos devolver. Porque algumas experiências não eram importantes apenas pelo resultado. O caminho também fazia parte delas.
Esperar criava expectativa. Preparar exigia presença. Repetir um pequeno gesto ajudava a marcar o tempo. E, em uma rotina em que tudo parece urgente, talvez esses rituais tenham uma função ainda mais importante: interromper o automático.
Quando falamos de saúde mental e bem estar, não raro pensamos em grandes mudanças. Diminuir a carga de trabalho, estabelecer limites, reorganizar prioridades, buscar ajuda. Tudo isso é fundamental. Mas gosto de pensar também nas pequenas escolhas cotidianas que nos ajudam a voltar para nós mesmos.
Não como mais uma obrigação de autocuidado ou uma nova lista de coisas que “precisamos fazer”. Justamente o contrário.
Talvez cuidar de si também passe por recuperar espaços em que não precisamos produzir, otimizar ou acelerar nada. Momentos em que estamos simplesmente presentes no que estamos fazendo.
Pode ser preparar o café sem pressa. Regar uma planta pela manhã. Sentar para conversar sem olhar o celular. Caminhar prestando atenção no caminho. Ler algumas páginas de um livro antes de dormir.
Não precisamos voltar ao passado nem abrir mão da praticidade. Talvez possamos, simplesmente, escolher conscientemente o que não queremos acelerar.
Porque nem sempre é preciso produtividade. Porque nem tudo precisa ser otimizado. Porque nem todo tempo precisa ser economizado.
Alguns tempos precisam ser vividos.