Tenho medo.
Como alguém que está à beira de um abismo. Como um louco no início da sua jornada que não carrega nada. Sem passado e sem futuro, a um passo de pular para o infinito sem saber o que pode acontecer.

Também tenho saber.
Como um mago que, com as mãos abertas, transforma o invisível em presença. Que entende que o medo é matéria-prima e que a criação nasce do risco. Entre o céu e a terra, ele tece o fio que une o impossível.
Mas continuo com medo.
Como alguém que está prestes a virar uma esquina e mudar completamente a direção do seu caminho. Como namorados diante de uma escolha, sem volta, a um passo de iniciar um novo destino que se escreve no agora.
E me lembro que tenho prudência.
Como uma roda que gira sem pressa o destino, sabendo que tudo muda. A queda e o topo são só momentos e que há sabedoria em esperar o tempo certo, em respirar antes de girar o eixo outra vez.
Mas ainda assim tenho medo.
Como alguém que se vê em ruínas quando uma torre desaba. Quando o controle cai e o relâmpago rasga o céu, mostrando que o que era abrigo também era prisão.
E me lembro que tenho esperança, coragem e fé.
Como alguém que, no meio da noite, vê uma estrela brilhar e lembra que há guias no escuro e cada queda é um convite para despir o que não é essencial. Como alguém que, ao erguer o rosto para o sol, descobre que a luz também é sua. Como quem percebe que o mundo não é uma prisão, ele é a própria jornada.
Tenho medo. E, ainda assim, sigo porque tenho amor.
Como alguém que descobriu a si pelos olhos do outro, mas também no reflexo dos próprios olhos, que não há salto sem asas, nem escolha sem crescimento.
Porque entendi que a jornada não pede certezas, pede presença. E, a cada passo, quando o sol nascer, com magia e loucura, num brilho de olhos apaixonados, e o mundo se abrir em círculo, saberei: não era o abismo que me chamava, era o voo. E voar é o verbo mais bonito para viver.
Discussão
Nenhum comentário ainda.